Financiamento, inovação e articulação institucional impulsionam o avanço e a expansão da cadeia produtiva no Brasil. Recursos disponíveis, instrumentos diversificados e integração com ICTs são apontados como caminhos para escalar projetos e ampliar a presença do setor no território nacional
Foz do Iguaçu – Na abertura do segundo dia do 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, o painel “Investimentos na Cadeia de Biogás e Biometano” reuniu especialistas para discutir oportunidades e estratégias de financiamento no setor. Participaram Paulo Resende, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e Rafael Menezes, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com moderação de Aline Scarpetta (CIBiogás) e contribuições dos debatedores Alessandro Gardemann, da Geo Biogas & Carbon; Ana Carolina Sala Moreno, da Itaipu Parquetec; e Fábio Cavalcante, da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
Abrindo o debate, a moderadora Aline Scarpetta, diretora de Estratégias e Inovação do CIBiogás, convidou Rafael Menezes, coordenador-geral de Tecnologias Setoriais da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), para apresentar as ações do governo voltadas ao financiamento da cadeia. O representante do MCTI destacou o esforço permanente, mesmo diante de restrições orçamentárias. “Estamos investindo constantemente em programas de inovação, especialmente no Combustível do Futuro e no RenovaBio. Precisamos ser assertivos naquilo que gera impacto social e econômico ao país”, afirmou.
Menezes detalhou o programa Mais Inovação, estruturante para a reindustrialização nacional: “São R$ 3,3 bilhões em subvenção para projetos de risco tecnológico. Dentro disso, temos um edital de transição energética com R$ 500 milhões específicos para biogás e biometano, já aberto para recebimento de propostas”.
Ao abordar a dimensão territorial do setor, Menezes falou a respeito de um aspecto estratégico. “Se traçarmos uma linha de Brasília para baixo, mais de 90% das plantas estão concentradas. Precisamos levar essa agenda ao Norte e Nordeste”, disse. Nesse contexto, ele apresentou o projeto “Biogás e Biometano: da Floresta ao Sertão”, que prevê diagnóstico regional, desenvolvimento de rotas tecnológicas, estruturação de projetos e implantação de unidades-piloto na parte de cima do mapa do país. “Já realizamos o mapeamento de potencial e identificamos cerca de 4,5 bilhões de metros cúbicos por dia de biometano nessas regiões. Áreas como o leste alagoano, agreste pernambucano e regiões metropolitanas de Recife e Fortaleza concentram 19% desse potencial”, destacou, reforçando que o trabalho deve ser concluído ainda este ano.
Na sequência, Paulo Resende, gerente de Transição Energética da Finep, ampliou a visão sobre instrumentos de financiamento, conectando inovação e viabilidade econômica. “Estamos impressionados com a mobilização do setor. Nosso papel é transformar o Brasil por meio da inovação, apoiando projetos e impulsionando o investimento privado com impacto positivo na sociedade”, afirmou.
Ele destacou o volume recente de recursos: “Nos últimos três anos, aportamos mais de R$ 40 bilhões em pesquisa e inovação, com um ritmo acelerado de análise e contratação de projetos”. Segundo Resende, a entidade atua diretamente em iniciativas como a Nova Indústria Brasil, que inclui combustíveis do futuro como eixo estratégico. “Temos hoje o melhor portfólio da história para transição energética: crédito, subvenção e investimento. Mas é fundamental que os projetos estejam bem estruturados, com clareza de aplicação dos recursos e viabilidade logística e industrial”, explicou.
Resende também chamou atenção para a importância dos estudos iniciais. “Financiamos de 3,5% a 5% do valor total para estudos de viabilidade. Sem essa etapa, não se garante a implantação da planta.” Ele enfatizou o potencial do setor: “Estamos falando de um insumo que hoje é tratado como resíduo e pode gerar riqueza. Precisamos escalar projetos mais maduros.”
O gerente da Finep falou sobre o fundo voltado à inovação. “Temos um fundo de R$ 240 milhões, podendo chegar a R$ 500 milhões, para empresas de base tecnológica que atuem em descarbonização e transição energética”, citou. Ao final de sua participação, reiterou que o momento é estratégico para o setor atingir um novo patamar. “Não podemos desperdiçar essa oportunidade. Temos pessoas, recursos, políticas e instituições para fortalecer esse setor”, concluiu.
A fala sustentou o ponto exposto pela moderadora sobre o volume de recursos disponíveis. “Vemos números robustos, tanto em recursos não reembolsáveis quanto subsidiados, o que demonstra o potencial de investimento na cadeia”, comentou Aline Scarpetta.
Na sequência, Ana Carolina Sala Moreno, especialista em Inovação do Itaipu Parquetec, em Foz do Iguaçu, apresentou a perspectiva das Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs), destacando seu papel como elo entre pesquisa e mercado. “As ICTs oferecem estrutura, conhecimento e suporte técnico para atender às demandas reais das empresas, com laboratórios, plataformas tecnológicas e ambientes de prototipagem já disponíveis”, explicou.
Ela destacou que esse modelo reduz custos para as empresas. “Muitas vezes, a infraestrutura já está pronta. O diferencial é saber utilizar esse ambiente para validar soluções.” Além disso, ressaltou a importância da articulação: “Temos parcerias com outras ICTs, empresas e universidades, o que amplia a capilaridade e permite atuação nacional e até internacional”.
Sobre o Itaipu Parquetec, Ana Carolina detalhou a estrutura. “Somos mais de 800 colaboradores, com mais de 500 atuando diretamente em tecnologia, muitos no biogás e biometano.” Ela também frisou o apoio à captação de recursos. “Criamos um ecossistema para estruturar propostas, apoiar tecnicamente e facilitar o acesso a editais”, disse.
A conexão entre ICTs e empresas foi enfatizada pela moderadora, destacando que integração resulta em soluções mais robustas. Nesse contexto, Alessandro Gardemann, CEO da Geo Biogas & Carbon, falou sobre a visão do mercado e da inovação aplicada. “O Brasil tem a responsabilidade de se tornar referência global. Não existe modelo pronto para copiar. Nenhum país tem a escala que temos”, afirmou, apontando a necessidade de desenvolver soluções adaptadas à realidade brasileira. “Aqui, muitas vezes somos o provedor primário de energia, diferente de mercados com infraestrutura consolidada”, disse.
Retomando o debate, Rafael Menezes salientou a importância dos instrumentos fiscais. “Temos incentivos relevantes para empresas que investem em pesquisa, desenvolvimento e inovação, mas ainda são pouco utilizados. Já foram cerca de R$ 12 bilhões em isenções, mas poucas empresas do setor acessam esse benefício.”
Na sequência, Fábio Cavalcante, coordenador de Relações com o Mercado, da Embrapii, destacou o momento favorável à inovação no país. “Há décadas não se via um cenário tão positivo. Estamos batendo recordes de investimento, mas o grande desafio ainda é a comunicação: como as empresas conhecem esses instrumentos?”, questionou.
Ele explicou o modelo da instituição: “Trabalhamos com uma rede de 99 institutos credenciados e operamos em modelo tripartite, compartilhando risco e custo com as empresas. Não temos um edital específico, é fluxo contínuo. Se a empresa tem um desafio tecnológico hoje, pode ser apoiada imediatamente”.
Cavalcante reforçou o papel da Embrapii como facilitadora. “Aportamos recursos não reembolsáveis e ajudamos a fazer a engrenagem girar, mesmo com os riscos inerentes à inovação.” Ele ressaltou a diversidade de projetos apoiados. “Atendemos desde startups, com projetos de R$ 200 mil, até grandes iniciativas de R$ 100 milhões.”
Ao longo do painel, os participantes convergiram para um entendimento: o avanço da cadeia de biogás e biometano depende da combinação entre financiamento estruturado, inovação tecnológica e articulação entre governo, empresas e ICTs.
No encerramento, a moderadora Aline Scarpetta sublinhou a importância dessa integração para transformar potencial em projetos concretos. “Temos recursos, instrumentos e conhecimento disponíveis. O desafio agora é conectar esses atores e transformar oportunidades em soluções reais para o setor”, concluiu.
O FÓRUM – Realizado pelo CIBiogás, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Suínos e Aves, e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano é organizado pela Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (SBERA). O Fórum é anual e itinerante nos três estados do Sul. A oitava edição ocorreu de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).
Patrocínio Diamante: Itaipu Parquetec; Itaipu Binacional.
Patrocínio Ouro: 3DI Biogás; AB Energy; Awite; Bioo Soluções; Brasuma; PlanET; Roeslein; Scania; Schulz; UBE; Ultragaz; Vogelsang; WLM/CHP.
Foto: Idalgo Gomes/Divulgação FSBBB