Integração entre infraestrutura, tecnologia e mercado impulsiona o avanço do biometano na matriz energética. Sinergia com o gás natural amplia escala, competitividade e segurança no abastecimento
Foz do Iguaçu – Durante o 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, o painel “Biometano + Gás Natural” reuniu especialistas na área para debater a integração e a complementaridade entre as fontes energéticas. Participaram Gabriel Kropsch, da Sinergas; Jorge Suarez, da Air Products; Luciana Balter, da UBE; Marcelo Mendonça, da Abegás; Marília Motomura Vieira, da Evonik, e Rafael González, da NECTA Gás Natural, com moderação de Rafael Lamastra Jr., do CIBiogás.
Abrindo o painel, o moderador destacou que o avanço do setor passa necessariamente pela integração entre biometano e gás natural, tanto do ponto de vista tecnológico quanto de mercado. Ele reforçou que o objetivo do debate era explorar soluções que conectem produção, infraestrutura e consumo, ampliando escala e competitividade para uma matriz energética mais eficiente e sustentável.
Marília Motomura Vieira, coordenadora de Negócios da Evonik, iniciou as apresentações trazendo a trajetória da empresa e sua atuação global em especialidades químicas. Com presença consolidada no Brasil e mais de mil plantas operadas no mundo, a companhia atua com soluções de materiais a sistemas integrados. “Oferecemos tecnologia que vai desde monômeros, polímeros e fibras ocas até módulos de membrana, com suporte técnico ao integrador e ao usuário final”, explicou.
Ela destacou a flexibilidade das soluções, aplicáveis a plantas de pequena e grande escala, com destaque para projetos como o da USP, que integra geração de energia e uso veicular, e iniciativas internacionais em gás de aterro. Segundo Marília, a tecnologia de membranas está presente em mais de 1.500 plantas no mundo.
Na sequência, Luciana Balter, especialista em Desenvolvimento de Negócios da UBE, abordou os fatores que impactam a viabilidade dos projetos. “Existem diversas tecnologias disponíveis, mas a escolha precisa considerar variáveis como investimento, eficiência e estabilidade no médio e longo prazo”, afirmou. Ela destacou que muitas decisões ainda são tomadas por familiaridade, o que pode limitar a adoção de soluções mais inovadoras. “Uma análise mais profunda pode transformar projetos aparentemente inviáveis em oportunidades viáveis.” Para o mercado brasileiro, ela apontou maior maturidade, com avanços regulatórios, integração de redes e incentivos, mas também novas exigências, como aumento de escala e estabilidade operacional. “No fim, a escolha tecnológica impacta diretamente o retorno do investimento. Uma decisão mal estruturada pode comprometer receita e eficiência ao longo do tempo”, completou.
O moderador organizou o painel em dois blocos — tecnologia e negócios — e convidou Jorge Suarez, diretor Comercial Global da Air Products, para aprofundar a discussão técnica. Jorge apresentou as soluções da empresa em membranas, com atuação global e produção anual de cerca de 30 mil unidades. Ele enfatizou a importância do pré-tratamento e da customização dos projetos. “Desenvolvemos soluções específicas para cada cliente, considerando variáveis como pressão, vazão e temperatura, que impactam diretamente o desempenho do sistema. ”Ele também detalhou configurações com múltiplos estágios, incluindo sistemas que permitem reciclagem próxima de 100%, reforçando o papel da empresa.
Na transição para o bloco de negócios, Gabriel Kropsch, sócio-fundador da Sinergas, apresentou uma visão prática da cadeia de valor, com mais de 30 anos de atuação em infraestrutura e compressão de gás. “Independentemente da produção, a vazão de abastecimento precisa atender ao tempo do transportador, entre 600 e 900 m³/h. Isso exige planejamento detalhado da infraestrutura”, explicou. Ele apresentou diferentes modelos de negócio, como abastecimento na planta, GNC ponto a ponto e soluções estruturantes, reforçando a diversidade de arranjos possíveis.
Gabriel ressaltou, ainda, que o planejamento reduz riscos, mas não elimina incertezas: “Os projetos evoluem com o mercado. Um investimento de R$ 300 milhões pode ter respostas diferentes das previstas inicialmente, e o modelo de negócio pode mudar ao longo do tempo”.
Rafael González, da Necta Gás Natural, relatou a estratégia da concessionária para integrar biometano à rede de distribuição. “Atuamos em 375 municípios e estamos em uma região com alto potencial de produção. Passamos a olhar não só para o consumo, mas também para a origem da molécula.” Ele destacou políticas públicas como o programa Combustível do Futuro e incentivos estaduais, além de chamadas públicas para conexão de plantas. Atualmente, a empresa mapeia 135 usinas com potencial de produção de cerca de 6 milhões de metros cúbicos por dia.
“Nos posicionamos para conectar oferta e demanda, com foco também no setor de transportes. Estamos em rotas estratégicas do país e precisamos olhar para essa substituição do diesel de forma estruturada”, afirmou.
O diretor-executivo da Abegás – Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, Marcelo Mendonça, mostrou a visão das distribuidoras e da integração com a rede. “Nosso modelo é baseado na lógica de compartilhamento de infraestrutura. Quanto maior a demanda, menor a tarifa”, explicou. Ele reforçou que biometano e gás natural são complementares. “Não são concorrentes. A integração permite ampliar a oferta e reduzir custos.” Segundo ele, o setor já conta com 2,2 milhões de metros cúbicos ao dia instalados e projeções que podem chegar a quase 30 milhões nos próximos anos.
Marcelo destacou ainda o papel do transporte pesado na geração de demanda. “Temos infraestrutura disponível, com cerca de 160 postos em rodovias. Precisamos aproveitar isso rapidamente para viabilizar a escala.”
Ao longo do debate, os participantes convergiram para a importância da integração entre tecnologias, modelos de negócio e infraestrutura. A expansão do setor depende da conexão eficiente entre produção, distribuição e consumo, com políticas públicas e regulação alinhadas.
No encerramento, o moderador Rafael Lamastra Jr. reforçou que o futuro do biometano está diretamente ligado à sua integração com o gás natural. Ele observou que o setor já dispõe de tecnologia, infraestrutura e agentes capazes de impulsionar essa transformação, e que o desafio agora é acelerar a conexão entre oferta e demanda para consolidar uma matriz energética mais competitiva e sustentável.
O FÓRUM – Realizado pelo CIBiogás, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Suínos e Aves, e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano é organizado pela Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (SBERA). O Fórum é anual e itinerante nos três estados do Sul. A oitava edição ocorreu de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).
Patrocínio Diamante: Itaipu Parquetec; Itaipu Binacional.
Patrocínio Ouro: 3DI Biogás; AB Energy; Awite; Bioo Soluções; Brasuma; PlanET; Roeslein; Scania; Schulz; UBE; Ultragaz; Vogelsang; WLM/CHP.