Soluções aplicadas, inovação tecnológica e modelos de negócio mostram, na prática, como o biogás e o biometano já se consolidam como alternativas viáveis e em expansão na matriz energética brasileira
Foz do Iguaçu – O 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, contou com um momento intitulado “Biogás na Prática”, que se destacou pelo formato diferenciado, reunindo especialistas e empresas para apresentar soluções aplicadas e exemplos do setor. O encontro contou com moderação de Alessandra Freddo (CIBiogás) e Ricardo Steinmetz (Embrapa Suínos e Aves), além das apresentações de Ansberto Passo (Teccalor), Cristiano Rickmann (SULGÁS), Eduardo Claviso do Amaral (Ígnea Biogás), Fernando Rigoni (Phileo), Guilherme Genesini Galhardo (AB Energy), Jan Zengerink (Membrane Systems Europe), Lúcio Ricken (3DI Biogás), Rafaela Eckhardt (Penetron), Rickard Schäfer (Greenlane) e Sofia Paoli (Awite).
Diferente dos painéis de debate, o “Biogás na Prática” foi estruturado como uma vitrine de soluções, com foco em tecnologias, modelos de negócio e experiências já em operação no mercado. Na abertura, a moderadora Alessandra Freddo destacou o objetivo do encontro: evidenciar o que já está acontecendo no setor. “Quando olhamos para o biogás e, principalmente, para o biometano, vemos um crescimento expressivo nos últimos anos. O que antes era potencial, hoje se traduz em projetos concretos. O setor está amadurecendo, com mais players e maior inserção na matriz energética brasileira”, afirmou.
Abrindo as apresentações, Fernando Rigoni, da Phileo, trouxe a visão biotecnológica aplicada ao biogás, destacando a utilização de microrganismos para otimizar a digestão anaeróbia. Representando uma multinacional francesa com forte atuação global em fermentação, ele ressaltou que a empresa trabalha com um amplo portfólio de leveduras, bactérias e fungos. “O ganho de eficiência é fundamental para tornar o negócio sustentável. Desenvolvemos soluções aplicadas que podem gerar ganhos superiores a 90% no processo, aumentando a produtividade e o aproveitamento dos resíduos”, explicou. Segundo ele, após consolidação na Europa e expansão para a China, o Brasil surge como mercado estratégico. “Vemos que o país tem condições de liderar a produção global de biogás, com soluções adaptadas à realidade local”, destacou.
Na sequência, Lúcio Ricken, da 3DI Biogás, abordou a evolução da empresa desde sua fundação, inicialmente focada em purificação e que hoje atua com soluções completas, incluindo biorrefinarias modulares e modelos inovadores como Energy as a Service. Inserida no ecossistema de inovação do Parque Tecnológico Itaipu, a empresa ampliou sua atuação para países como Peru, Chile e Colômbia e recentemente passou a integrar o grupo italiano Pietro Fiorentini. “Estamos transformando passivos ambientais em ativos econômicos, com tecnologia nacional e monitoramento em tempo real, permitindo maior eficiência operacional”, afirmou. Ele também destacou o avanço no setor sucroenergético: “Esse segmento ainda tem baixa representatividade no biometano, mas vemos uma crescente demanda e um grande potencial de expansão”.
No campo da engenharia e integração de sistemas, Guilherme Genesini Galhardo, da AB Energy, evidenciou soluções modulares voltadas ao reaproveitamento do biogás em múltiplas aplicações. Representando um grupo italiano com presença global, ele destacou o conceito de integração completa das plantas. Como exemplo, indicou o case do Grupo Energisa, com uma planta projetada para produzir cerca de 29 mil metros cúbicos por dia de biometano, com pureza de 97%. “Toda a estrutura foi desenhada para operar de forma integrada, desde a geração de energia elétrica até a purificação e abastecimento veicular”, explicou, ressaltando ainda o monitoramento contínuo e a busca por eficiência operacional.
Já Rickard Schäfer, da Greenlane, trouxe a visão tecnológica aplicada à purificação do biogás. A empresa, com décadas de atuação, oferece diferentes tecnologias, como Water Wash, PSA e membranas. Ele mencionou soluções como o sistema Cascade LF, voltado para remoção biológica de H2S, especialmente relevante para o perfil de resíduos no Brasil. “Nosso foco é maximizar a recuperação de metano. Cada 1% adicional representa ganho direto no resultado econômico do projeto”, afirmou. Schäfer também apontou mudanças no mercado: “Os projetos estão maiores, mais estruturados e os clientes mais sofisticados, tanto tecnicamente quanto financeiramente”.
Na frente de distribuição e integração ao mercado, Cristiano Rickmann, da Sulgás, apresentou estratégias para conectar produção e consumo de biometano. A companhia atua com três modelos principais: conexão direta à rede, desenvolvimento regional e hubs de biometano. “Lançamos uma chamada pública para aquisição de gás, buscando integrar produtores que estão distantes dos centros consumidores”, explicou. Ele disse que a proposta é centralizar a injeção do gás na rede existente, reduzindo custos e ampliando o acesso ao mercado. “Queremos transformar o potencial em mercado real, ampliando a participação do biometano na matriz energética”, afirmou.
A aplicação energética foi detalhada por Ansberto Passo, da Tec.calor, que apresentou soluções para uso térmico do biogás em setores como agroindústria, bebidas, papel e saneamento. “O primeiro passo é entender o resíduo e transformá-lo em ativo energético. A partir disso, é possível estruturar a operação e gerar valor, inclusive com certificações como o Gás-REC”, explicou. Segundo ele, esse mecanismo permite monetizar a produção e atender empresas interessadas na redução de emissões.
No campo da digitalização e monitoramento, Sofia Paoli, da Awite, destacou a importância da análise contínua da produção. “Muitas perdas de biogás acontecem por falta de controle. Com sistemas de monitoramento em tempo real, conseguimos identificar variações e otimizar o processo”, afirmou.
Complementando essa abordagem, Eduardo Claviso do Amaral, da Ígnea Biogás, apresentou soluções para rastreabilidade e certificação por meio de plataformas digitais. “A tecnologia permite acompanhar toda a produção e viabilizar a geração de créditos e certificações. O futuro é digital, sustentável e passa pelo biogás”, frisou.
Já Rafaela Eckhardt, da Penetron, trouxe um olhar voltado à infraestrutura, abordando desafios relacionados à durabilidade dos biodigestores. Ela explicou o processo de biodeterioração causado por gases e apontou soluções de revestimento que protegem as estruturas contra agentes corrosivos. “Garantir a integridade das estruturas é essencial para a longevidade e segurança dos projetos”, disse.
Encerrando o conjunto de apresentações, Jan Zengerink, da Membrane Systems Europe (MSE), abordou uma perspectiva internacional, ressaltando o potencial de expansão em países agrícolas como o Brasil. Ele também falou de tecnologias emergentes, como o uso de membranas para hidrogênio e o papel do biogás como forma de armazenamento de energia. “O biogás é uma das poucas fontes que permitem armazenar energia, o que amplia sua relevância estratégica”, explicou, citando exemplos europeus de uso combinado entre geração e armazenamento.
Ao final, os moderadores Alessandra Freddo e Ricardo Steinmetz, reforçaram que o painel cumpriu o papel de apresentar, de forma prática e aplicada, diferentes soluções ao longo de toda a cadeia do biogás e do biometano. Da biotecnologia à engenharia, da digitalização à distribuição, os cases demonstraram que o setor já vive uma fase de consolidação, com tecnologias disponíveis, modelos de negócio estruturados e um ambiente cada vez mais favorável à expansão no Brasil.
O FÓRUM – Realizado pelo CIBiogás, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Suínos e Aves, e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano é organizado pela Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (SBERA). O Fórum é anual e itinerante nos três estados do Sul. A oitava edição ocorreu de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).
Patrocínio Diamante: Itaipu Parquetec; Itaipu Binacional.
Patrocínio Ouro: 3DI Biogás; AB Energy; Awite; Bioo Soluções; Brasuma; PlanET; Roeslein; Scania; Schulz; UBE; Ultragaz; Vogelsang; WLM/CHP.
Foto: Hidalgo Gomes/Divulgação FSBBB