Integração entre produção, distribuição e consumo ganha protagonismo no avanço da mobilidade a biometano. Palestras destacam competitividade, segurança energética e infraestrutura como pilares para expansão do uso no transporte
Foz do Iguaçu – Durante o 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, o painel “Mobilidade a Biometano” reuniu representantes de empresas e instituições para discutir soluções e avanços no uso do biometano no setor de transportes. Participaram Daniel M. do Valle (Copersucar), Diego Gomes Gagnotto (Ultragaz), Eudis Furtado (Compagas), Felipe Ferreira Pinto (Roeslein), Gustavo Bonini (Scania) e Loana Defaveri Fortes (CETRIC), com moderação de Marlon Maues (Fetranspar).
Abrindo o debate, o moderador Marlon Maues, da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado do Paraná, trouxe uma provocação central sobre a cadeia do biometano. “Quando estivermos prontos, vamos vender isso para quem? Em um país continental, a logística precisa ganhar espaço. Representamos os transportadores e vemos que ainda é um tema novo para muitos. Temos pioneiros, mas não queremos que seja modismo _ queremos uma mudança disruptiva”, afirmou. Ele também destacou o potencial do Paraná, frequentemente apontado como um dos polos estratégicos do biometano no país.
A primeira a participar foi Loana Defaveri Fortes, diretora de Operação e Biogás da CETRIC, apresentando a visão prática de quem atua em toda a cadeia. “Trabalhamos com um modelo de integração total, um gerenciamento 360 graus, desde a coleta até o abastecimento. Nosso maior gargalo ainda é a infraestrutura, mas nosso ponto forte é a frota”, explicou.
Ela detalhou a evolução da empresa, que iniciou em 2019 com uma Saveiro híbrida e hoje conta com 233 caminhões, sendo 46 movidos 100% a gás. “Não é só descarbonização, é economia. O transporte está exposto a variáveis como câmbio, preço e logística, e isso impacta diretamente o cliente. O mercado está pressionando por soluções com selo verde e redução de emissões.”
Loana também destacou iniciativas como a Cetrilog, voltada à logística sustentável, o Projeto Rota Azul, com pontos de compressão e abastecimento de biometano, e o Projeto Araucária, no Paraná. “Estamos mudando um paradigma. O combustível do futuro já move o nosso presente”, concluiu.
Na sequência, Daniel M. do Valle, diretor de Estratégia e Novos Negócios da Copersucar, trouxe a visão de escala e mercado. “Nosso ecossistema foi estruturado para açúcar e etanol, agregando escala e desenvolvendo soluções. Queremos aplicar essa mesma lógica ao biometano”, afirmou.
Ele citou a posição da empresa no setor. “Somos líderes no mercado nacional, com quase 20% de participação. Das 42 unidades, temos uma distribuição geográfica que garante disponibilidade do produto onde há demanda.” Segundo ele, apenas 30% da operação é própria, com 70% vindo de parceiros — modelo que também será replicado no biometano.
Sobre metas, foi direto: “Queremos atingir 2 milhões de metros cúbicos por dia até 2030, volume suficiente para abastecer 10 mil caminhões por dia. Hoje, temos cerca de 2 mil caminhões a gás no país, o que mostra o potencial de crescimento.”
Ele também destacou os ganhos econômicos. “Hoje conseguimos produzir biometano com custo até 20% menor na bomba, podendo chegar a mais de 40%.” E reforçou a operação em andamento: “Já temos 70 caminhões operando em três grandes rotas entre Paraná e São Paulo e queremos expandir para 500.”
A fala dialoga com o ponto levantado pelo moderador sobre infraestrutura. “Os caminhões já têm autonomia superior a 500 km e podemos estruturar uma malha de abastecimento com alta pressão e maior velocidade. O pacote precisa ser completo: economia e descarbonização.”
Na visão de Eudis Furtado, CEO da Compagas, o debate vai além da transição energética. “Não estamos falando de transição, mas de adição energética. Precisamos incluir novas fontes e reduzir a dependência do diesel”, afirmou.
Ele abordou dados relevantes: “Cerca de 25% do diesel consumido no país é importado, o que faz com que qualquer variação externa impacte diretamente o frete e toda a cadeia.” Nesse contexto, destacou o biometano como alternativa nacional. “É um combustível em reais, regulado pelo nosso IPCA, e pode gerar economia de 35% a 40% em relação ao diesel.”
Também apontou avanços tecnológicos. “Os bicos de alta pressão reduziram o tempo de abastecimento de 40 minutos para cerca de 9.” Além disso, destacou o impacto ambiental: “A redução de material particulado chega a 95%, o que é uma questão de saúde pública.”
Eudis reforçou ainda o potencial logístico do Paraná. “O estado tem rotas de até 650 quilômetros até Paranaguá, com milhões de litros de diesel consumidos por dia. Se convertermos uma fração dessa frota, teremos impacto significativo em custo e emissões.”
Na mesma linha de aplicação prática, Felipe Ferreira Pinto, Business Development Manager da Roeslein, destacou a importância da tecnologia e da escala descentralizada. “Trabalhamos com soluções modulares para purificação de biogás, com recuperação de até 99% do metano”, explicou.
Ele apresentou o primeiro projeto da empresa no Brasil, em Minas Gerais. “A proposta é atender desde o pré-tratamento até a compressão, com produção local para consumo local, substituindo inicialmente oito caminhões com operação entre 400 e 500 quilômetros.”
Felipe falou de um ponto crítico para a expansão: “Falta informação para o pequeno produtor. Muitos ainda não conseguem dimensionar o retorno do investimento e ficam divididos entre investir em biometano ou em maquinário agrícola.”
O tema da estrutura de mercado foi reforçado por Diego Gomes Gagnotto, gerente executivo de Gases Renováveis da Ultragaz. “Vivemos uma nova transição energética, semelhante à que ocorreu com a migração do carvão e da lenha para o GLP”, afirmou.
Ele destacou a capilaridade da empresa. “Atendemos mais de 11 milhões de domicílios, com mais de 80 milhões de entregas por ano. No B2B, são mais de 57 mil clientes e mais de 1 milhão de abastecimentos anuais.”
Sobre o biometano, ressaltou o protagonismo. “Só em 2025, evitamos 60 mil toneladas de CO₂ com nossos clientes. Temos a maior frota de carretas voltadas à operação de biometano e atuamos em sete estados.”
Diego também reforçou os pilares do setor. “O transportador precisa de três garantias: competitividade, segurança energética e confiança de que está adotando uma solução realmente sustentável.”
Representando a indústria automotiva, Gustavo Bonini, diretor Institucional da Scania América Latina, destacou a maturidade da tecnologia. “Não estamos falando de teste. Na Suécia, essa tecnologia é usada desde os anos 70. No Brasil, produzimos desde 2018”, afirmou.
Ele reforçou o investimento nacional. “Temos mais de 300 engenheiros no Brasil trabalhando no desenvolvimento contínuo dessa tecnologia.” E destacou o papel do biometano na economia circular. “Transformamos um passivo ambiental em solução energética.”
Bonini também trouxe exemplos concretos. “Recentemente entregamos o primeiro lote de um total de 501 ônibus para Goiânia, com uso de biometano em sistema BRT.” E defendeu a neutralidade tecnológica. “O papel do poder público é incentivar a descarbonização, não escolher a tecnologia.”
Ao longo do debate, o moderador Marlon Maues reforçou a necessidade de estruturação da cadeia. “Não se trata de substituir, mas de adicionar soluções. O transportador precisa de opções, e a logística precisa acompanhar essa evolução.”
Os participantes convergiram para um ponto: o avanço da mobilidade a biometano depende da integração entre produção, distribuição, tecnologia e consumo, com políticas públicas e infraestrutura capazes de sustentar a escala necessária para o setor.
No encerramento, o moderador Marlon Maues, assessor estratégico da Fetranspar, reforçou a importância da integração entre os elos da cadeia e o papel dos parceiros de negócios no avanço do setor. “Precisamos olhar para quem está construindo essa jornada junto. Não podemos mais tratar o biometano como combustível do futuro — ele já é uma realidade. É o aqui e agora, com agentes que estão promovendo essa transformação e conduzindo esse processo de disrupção no transporte”, concluiu.
O FÓRUM – Realizado pelo CIBiogás, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Suínos e Aves, e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano é organizado pela Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (SBERA). O Fórum é anual e itinerante nos três estados do Sul. A oitava edição ocorreu de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).
Patrocínio Diamante: Itaipu Parquetec; Itaipu Binacional.
Patrocínio Ouro: 3DI Biogás; AB Energy; Awite; Bioo Soluções; Brasuma; PlanET; Roeslein; Scania; Schulz; UBE; Ultragaz; Vogelsang; WLM/CHP.
Foto: Hidalgo Gomes/Divulgação FSBBB