Participantes conferiram de perto experiências que envolvem o aproveitamento de diferentes tipos de resíduos para obtenção de biogás destinado a aplicações energéticas (energia elétrica, térmica e biometano) em cooperativas, granjas e empresas
Conhecer de perto a produção de biogás e biometano a partir de diferentes culturas é o que as visitas técnicas oportunizaram aos participantes do 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano (FSBBB), realizado de 14 a 16 de abril em Foz do Iguaçu (PR). Foram quatro roteiros simultâneos, percorridos no último dia do evento, em propriedades rurais, empresas e organizações na região Oeste do Paraná.
Cerca de 120 pessoas participaram das visitas técnicas em sete unidades de biogás, distribuídas por seis municípios da região. Entre os participantes estava Luciano Rodrigues Rolim de Moura, vindo de Rondônia, que acompanha o Fórum pela quinta vez. “Sou um entusiasta do evento e participo de cada edição para conhecer novos profissionais e fornecedores. As visitas técnicas sempre apresentam inovações”, observa. Ao visitar as unidades das cooperativas Frimesa e da Copacol, Luciano indicou a diferença entre os modelos paranaenses e os sistemas predominantes em sua região, onde prevalece o modelo de lagoa coberta. Desta vez, ele pôde conhecer de perto complexos que operam com o sistema CSTR. “A estrutura é distinta e a integração das equipes é impressionante. Ver esses sistemas funcionando traz a segurança necessária para adaptarmos e replicarmos essas soluções em nossa realidade local”, observou.
CSTR, codigestão, frigorífico

Em Medianeira, a visita ocorreu nas instalações da produção de biogás na Unidade Frigorífica da Cooperativa Frimesa, na área de tratamento de efluentes de abatedouro de suínos para produção de biogás e geração de energia térmica, utilizada no processo de chamuscagem de carcaças. A unidade da Frimesa alcançou em 2025 mais de 1,3 milhão de suínos abatidos utilizando biogás em seu processo produtivo. A eficiência do sistema é comprovada pelo volume de mais de 1.000.000 m³ de biogás utilizados, substituindo fontes fósseis e otimizando a matriz energética interna. No local, os participantes percorreram o complexo de biogás, conhecendo equipamentos, como tanques, biodigestores, usina.
Foram recebidos pela Supervisora da Área Ambiental, Andrieli Schulz, e pelos colegas Flavio Gross e Jonatan Christmann, que explicaram sobre o processo desta inciativa da cooperativa, que atua na descarbonização da indústria, na correta destinação de resíduos agroindustriais e no fortalecimento da economia circular. Ao integrar inovação técnica com responsabilidade socioambiental, a Frimesa não apenas gera energia limpa, mas serve como um modelo de sustentabilidade para o mercado brasileiro de biogás.

Em Jesuítas, a visita técnica levou os participantes até a Usina de Biogás da Cooperativa Copacol, instalada na Unidade de Produção de Leitões – UPL, da comunidade Carajá. Essa planta, consolidou-se como uma das primeiras do país a operar energia renovável em escala cooperativista integrada. A estrutura produz diariamente cerca de 20 megawatts/hora, volume suficiente para abastecer a UPL Carajá e também as unidades de Formosa do Oeste, Central Santa Cruz e a UPD (Unidade de Produção de Desmamados), em Jesuítas. O sistema transforma resíduos orgânicos em energia, processando aproximadamente 15 mil toneladas por ano. Essa solução gera potencial econômico de mais de R$ 5 milhões anuais, ao mesmo tempo em que reduz a emissão de gases de efeito estufa, evita a contaminação do solo e da água e diminui a dependência de combustíveis fósseis, benefícios que reforçam o compromisso ambiental da Cooperativa. O grupo foi recebido pelo gerente de Meio Ambiente, Celso Brasil, para quem “investir em energia renovável é uma forma de garantir a sustentabilidade das próximas gerações. O compromisso da Copacol é continuar buscando soluções sustentáveis que beneficiem tanto a Cooperativa quanto a comunidade”.
Silvério Constantino, diretor da cooperativa, salientou a satisfação de receber o grupo. “Ver esse interesse demonstra que o trabalho desenvolvido pela nossa cooperativa ao longo de anos está ganhando visibilidade”, disse, ressaltando que, na visita, a Copacol pôde mostrar os avanços na questão ambiental, com a unidade de biogás, e, ao mesmo tempo, aprender com a troca de experiências. Ele destacou a parceria com a Embrapa (instituição realizadora do Fórum) em diferentes projetos, que tem sido fundamental para fomentar a inovação na cooperativa para atender os agricultores cooperados.
Culturas energéticas, efluentes da agroindústria e suinocultura

Em Toledo, o destino foi conhecer de perto a Biokohler/Biograss e a Central de Bioenergia, e as soluções que desenvolvem em energia. Na primeira parada, na Biokohler/Biograss, os participantes conheceram a produção de biometano, de energia elétrica e de biofertilizante a partir das culturas de sorgo forrageiro e de capiaçu (capim-elefante), uma iniciativa ainda experimental e desenvolvida em parceria com a Embrapa, e de resíduos agroindustriais, de suinocultura e bovinocultura.
A usina opera desde 2018 e tem capacidade instalada para receber até 80 toneladas/dia de resíduos. Na visita, o grupo percorreu as áreas de plantio, de silagem e conheceu a estrutura utilizada na produção, com biodigestores, lagoas e equipamentos para produção do biometano – o combustível abastece um caminhão e pequenos veículos da empresa. No local, a planta de produção está sendo ampliada, para triplicar a produção de gás, como explicou um dos proprietários, Pedro Kohler, ao lado dos irmãos José e Paulo.

Na segunda etapa da visita em Toledo, a parada foi na Central de Bioenergia, desenvolvida pelo CIBiogás, o Centro Internacional de Energias Renováveis. Na planta, todo o gás produzido é utilizado na geração de energia elétrica, consumida no local, e o excedente é direcionado à rede da Copel, a companhia elétrica do Paraná. O substrato que abastece os biodigestores chega de caminhão, de 13 parceiros do setor de criação de animais (80% de suinocultura). A planta inclui tanque de estabilização, biodigestores para diferentes estágios, lagoas de digestato, unidade de tratamento do biogás, placas solares e conta com acompanhamento das operações à distância. No local, o grupo recebeu as boas-vindas e as explicações técnicas do coordenador da Central, Leonardo Lins, e do engenheiro de energia da unidade, Anderson Heydt.
Resíduos da produção animal

Em Itaipulândia, a visita técnica mostrou o funcionamento da planta da Usina Rui, uma operação familiar voltada à suinocultura que integra a geração de biogás no dia a dia da produção. São em torno de 6 mil suínos na granja, em regime de engorda.
No local, a usina produz energia elétrica para consumo próprio. Os visitantes viram, na prática, o uso do sistema de biodigestor com manta impermeável sobre os dejetos, que cria um ambiente fechado onde ocorre a digestão anaeróbia, permitindo a captura do biogás gerado. A água presente no processo auxilia na condução dos dejetos e na estabilização da matéria orgânica, garantindo eficiência na produção de gás e no tratamento do resíduo.

No município de Santa Helena, os visitantes conheceram o projeto de biogás na Granja Haacke, que produz biogás para a geração de energia elétrica e térmica no silo da fazenda. A propriedade conta com cerca de 240 mil aves, além de cinco mil suínos. Na visita, foi possível observar novamente as mantas de biogás em funcionamento, além das peneiras, utilizadas na separação sólido-líquido dos dejetos, uma etapa importante para melhorar a eficiência do processo e o aproveitamento dos resíduos.
RSU, biometano, hidrocarbonetos renováveis

Em Foz do Iguaçu, a Unidade de Produção de Biometano (UD Itaipu), implantada em 2017 para tratamento dos resíduos orgânicos do complexo Itaipu, é referência em pesquisa e inovação no campo das energias renováveis, com foco no biogás. A unidade reutiliza resíduos de restaurantes para produção do biogás e geração de biometano, destinado ao abastecimento de veículos leves e ônibus do turismo de Itaipu e à produção de biofertilizantes. Desde o início das operações, já foram 444,7 toneladas de resíduos tratados e quase 490 mil quilômetros rodados com biometano. A UD é resultado de parceria entre a Itaipu Binacional e o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás).

Já a Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis implementada na UD Itaipu é pioneira no Brasil na produção de biosyncrude — mistura de hidrocarbonetos sintetizada a partir do biogás que pode ser refinada ao combustível sustentável de aviação conhecido como SAF (Sustainable Aviation Fuel, em inglês). Na região de tríplice fronteira, a unidade operada pelo CIBiogás colabora com instituições federais, como o Ministério da Agricultura, a Polícia Federal e a Receita Federal. Resíduos orgânicos apreendidos na região são encaminhados à unidade, onde são convertidos em combustível veicular, reduzindo passivos ambientais e fortalecendo a economia circular.
O FÓRUM – Realizado pelo CIBiogás, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Suínos e Aves, e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano é organizado pela Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (SBERA). O Fórum é anual e itinerante nos três estados do Sul. A oitava edição ocorreu de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).
Patrocínio Diamante: Itaipu Parquetec; Itaipu Binacional.
Patrocínio Ouro: 3DI Biogás; AB Energy; Awite; Bioo Soluções; Brasuma; PlanET; Roeslein; Scania; Schulz; UBE; Ultragaz; Vogelsang; WLM/CHP.
Fotos: Arquivo FSBBB/Comunicação Copacol/Comunicação Frimesa